terça-feira, 4 de dezembro de 2012

SISOS E APÊNDICE


Sisos e apêndice – ainda os tenho. E ainda me pergunto por que o corpo humano não evoluiu o suficiente (já evoluiu tudo?) ao ponto de extinguir os sisos e o apêndice da gente. Ora, se de nada nos servem, para que existir? De certo somente aos dentistas e cirurgiões possam servir e fazer algum sentido, aos nos tirar. Pois de útil, nem mesmo a dor.

Ainda os tenho (medo?). Nunca ouvi alguém dizer dos benefícios dos sisos e apêndice no nosso corpo, somente prejuízos. Os sisos além da dor podem acarretar no “entortamento” dos outros dentes. Medo dos sisos por isso, talvez. Os meus misteriosamente nasceram e encaixaram-se perfeitamente na minha arcada dentária, por isso, deixe-os quietos. Meu sorriso ainda brilha sem a dor e o prejuízo dos sisos, senti-os somente quando nasceram. E o meu apêndice (acho que o tenho) nunca me incomodou. Mas de nada nos servem me disseram. Mas quando se está “doente do apêndice” (apendicite aguda?), dizem ser uma dor muito forte e é preciso urgentemente operar e retirá-lo, ates que, após o inchaço, ele exploda dentro de você e faça um grande estrago, dizem até perigoso. Ora Deus, para que ainda existe? O meu nunca se manifestou, deixe-o quieto.

Talvez o vinho faça bem (para o coração e os devaneios eu sei que faz). Por sorte nunca tive grandes lesões, mesmo na infância endiabrada, com lapsos de alpinista profissional, nas mais altas árvores e muros e grades. Nunca me “quebrei”, literalmente, nunca tive grandes lesões, mesmo querendo na escola usar gesso para que os colegas nele assinassem.

Nunca sofri de grandes dores. Na verdade a dor e a lesão mais grave que eu lembre é a que estava no momento em que escrevia esse texto. Estava me doendo muito o dedão do pé direito (acho que “destronquei”), fruto de um jogo de futebol com mixto de MMA, era com amigos, mas foi uma dividida digna de final de Libertadores.

Cortes, estes sim, já tive alguns dolorosos e profundos. Minha mãe me contava que um dia quando criança cai de cara em dois pregos, um cravou a cima de um olho e outro abaixo do outro, que sorte eu tive, poderia ter ficado cego, mas o máximo que aconteceu foi ao me levantar estar com uma tábua cravada na cara.

Mas o mais marcante é a grande cicatriz que ostento no pulso direito. “Como aconteceu?”. Pois bem, eu era pequeno, talvez uns 5 ou 6 anos, minha mãe carregava um garrafão de vinho (ahhh o vinho, já fazia parte desde a infância), olhei para ela com aquele olhar que só uma criança e um filho consegue fazer e desmontar qualquer coração de mãe, e disse:

_Mãe, deixa eu levar?

Minha mãe: “_Não! Vais cair e te cortar!”, (óbvio, era minha mãe, ela me conhecia).

Aí começou a batalha entre mãe e filho: “Deixa mãe”, “Não vais cair e te cortar”, “Ahhh deixa mãe”, “Não, vais cair e te cortar”, “ahhhhhhhhhh mãe deixa, que que tem...”. Claro que ela não resistiu ao meu olhar (olhar, até parece). “_Tá!!! Leva!!!”

Dei dois passos com o garrafão, tropecei e cai.

Minha mãe: “_Ah meu filho, eu te falei... (sábias mães).
Eu: “_Ahhhhh o vinho...”

Misturou-se sangue com vinho e até tive uma visão bíblica.
O vinho, sempre marcando as nossas vidas.

O coração, o cérebro, as pernas, os pés, as mãos, os braços, o fígado, os rins, o estômago, os olhos, o nariz, a boca... Tudo com suas funções especificas e complexas, tudo com algum sentido. Mas os sisos e o apêndice, desculpe meu criador, mas está sobrando peças nesse quebra-cabeça.

Foi o vinho, eu sei, o vinho.




terça-feira, 16 de outubro de 2012

Prefácio do meu livro A DOR PERPÉTUA... em construção






Prefácio

Como os outros, ele estava nu, amarrado pelos pulsos e tornozelos numa cruz como se fosse um Jesus Cristo. Chorava e urinava-se apenas imaginando o que aquela desgraçada insana seria capaz de fazer. A mente com certeza já estava totalmente destruída. Assim como a minha e a dos outros quatro padres, que enfim, foram libertos.
Talvez a dor não fizesse mais efeito, pois a mente já nos torturava 24 horas por dia, e realmente deveria ser essa mesmo a sua intenção, não somente a dor física, mas acima de tudo a dor psicológica. Estávamos ficando loucos. Mas isso era apenas mais um delírio humano que ainda restava da minha consciência. Ainda existia a dor, uma dor inimaginável, os gritos não deixavam dúvidas.
Com a mesma frieza de sempre, ela aproximou-se dele com um alicate e uma tesoura em suas mãos:
_Abra a boca!!!
_Não, por favor, não...
Enquanto ele implorava misericórdia chorando como uma criança, ela colocava à força o alicate em sua boca com uma força desproporcional, fazendo quebrar-lhe alguns dentes, puxou sua língua para fora da boca e a cortou com a tesoura. O sangue escorria pela sua boca e o seu corpo enquanto urrava de dor e debatia-se inutilmente tentando se desvencilhar das amarras. Ela não demonstrava nenhum tipo de sentimento, nenhuma expressão e dessa vez nenhuma palavra, como querendo acabar de uma vez com o seu objetivo. E eu não sabia o que aquela louca seria capaz de fazer a cada passo que dava, mas eu sentia que tudo estava perto do fim e nada ia fazê-la parar.
_Acabe logo com isso! É a mim que você quer.
Era como se eu fosse invisível.
Com a mesma tesoura, decepou as suas genitálias e eu a senti sussurrar – tanto faz para vocês não é mesmo-. Os gritos de dor pareciam mais agoniantes sem sua língua na boca. O seu rosto tinha expressões que jamais havia visto numa face e quando sua cabeça virou em minha direção e os seus olhos encararam os meus, um sentimento invadiu a minha alma e pela primeira vez naqueles dias, entrei em desespero e comecei a chorar de medo e pânico. Então ela olhou para mim e terrivelmente esboçou um sorriso tal qual a inspiração do seu nome.
Mona agarrou um galão de gasolina e banhou o corpo de Césare, logo em seguida riscou um fósforo e pôs fim aquele sofrimento. A minha pele quase queimou com o poder das chamas, os gritos eram horrendos, e o cheiro de carne queimada me fez ter náuseas e vomitar.
Enquanto isso, Mona ficou admirando-o como se fosse um quadro na parede até as chamas terem fim, e até Césare e a cruz virassem pó. Césare estava liberto, mas não sei até que ponto ele livrou-se da dor.

O próximo seria eu.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Engenheiro Imortal

Os ídolos não podem morrer...

Há coisas que nunca deveriam morrer. Uma flor bonita, uma música boa, um sorriso tímido e sincero. O brilho no olhar, o sol que nos aquece, a chama da vela, o vento da vela. Um rio nunca deveria secar. Era para ter proibição Divina para que os pais não morressem, nem os avós. Os amigos nunca deveriam morrer. O Ayrton Senna não poderia ter ido embora, e os Mamonas Assassinas foi muita sacanagem.

Esses dias, fiquei um "baita" tempo assistindo videos no YouTube do Humberto Gessinger, vocalista dos Engenheiros do Hawaii. Eram videos dele tocando e cantando pelo "TwitCan". Demais. Torci para que os videos nunca acabassem. A sensação que ficou foi de um show particular. Eu estava assistindo reprises de um "poketshow" que ele fez ao vivo para milhares de pessoas, mas a sensação é que naquele instante parecia um show só para mim. E uma sensação, além disso, inexplicável. Parecia que eu estava conversando com um amigo no MSN com a webcan ligada, a qualquer momento ele ia me dizer: "_Eaí Cássio, e o jogo ontem?"

Chegou um ponto, inconscientemente, que eu bebia um gole de café somente ao mesmo tempo em que o Humberto levantava e bebia sua caneca de chá. Estranho... Ainda mais estranho quando se trata de uma pessoa que nem te conhece. Eu o conheço. Um dia num show ele até acenou pra mim.

Não, eu não o conheço. Dos muitos shows que eu fui, de todas as músicas cantadas como um hino, de todas as vezes que eu fiquei até o fim, enquanto desmontavam tudo, esperando até o último minuto, só pra ver ele passar ligeiro e entrar dentro de uma Van. Não, não posso dizer que o conheço. O conhecemos assim, tão perto e tão distante. Essa é a sensação fã-ídolo. Essa era a sensação que eu queria explicar. Ali naquela TwitCan, tão perto e tão distante, objeto e observador. É você no Museu Du Louvre e a MonaLisa  lá bem distante, conhece mas não conhece.

O ídolo a gente conhece dentro de cada um.

Há coisas que nunca deveriam morrer. Uma árvore, uma estrela, um dia bom, um amor verdadeiro, tudo seguindo o seu caminho infinito, tudo seguindo numa  Highway Infinita.

Não há dúvidas que o Humberto Gessinger é ídolo de muita gente. Infinitos fãs, fãs de todas as idades, de todas as cores, fãs que nunca param de crescer. Ninguém=Ninguém, mas nesse caso, todos continuarão vestidos de Engenheiros e movidos a engrenagens.

O Gessinger é uma dessas "coisas" que nunca deveriam morrer. Coisa no melhor sentido que palavra pode ter. Um ídolo...
Infelizmente, como todos, um dia irá partir.

Mas tenho certeza, que quando as suas engrenagens pararem de girar, ele seguirá sendo sempre um ídolo, desses que nunca morrem, desses que são eternos. E mesmo eu sendo colorado, não tenho dúvidas da grandeza do seu querido Grêmio, e sei que em meio a um minuto de silêncio merecidamente respeitado, numa Nova Arena já velha, surgirá uma faixa erguida em meio à torcida, e gigantemente escrito: "Gessinger, Engenheiro Imortal!"

Os ídolos não podem morrer...


terça-feira, 4 de setembro de 2012

O QUE NOS TORNA HUMANOS

O que fez com que nossa raça deixasse de ser pré-histórica e se tornasse humana? Será que apenas uma mudança de era? Ou por o advento das idéias, do ser pensante que começou a mudar o mundo, a dominar o fogo, que inventou a roda e se esqueceu de se reinventar...

O que nos torna humanos?

Em tempos onde "pais jogam filhos pelas janelas, filhos no lixo, onde um pai mantém a própria filha em cativeiro por anos estuprando-a, onde uma sessão de cinema vira massacre, onde goleiros transformam mulheres em ração pra cachorro e onde esposas esquartejam maridos e colocam em malas". Até que ponto um ser-humano pode chegar, qual o seu limite, qual o momento que deixamos de "ser humanos" e nos tornamos animais. Não, os animais não merecem essa alcunha pejorativa, tal termo pejorativo era para ser o "humano". "_ Você é um humano!"

Nós estamos em retrocesso... Nós estamos conseguindo inverter os papéis, incrivelmente esse ser "pensante" que pode mudar e dominar o mundo parece estar retrocedendo, estamos novamente virando pré-históricos, homens e mulheres das cavernas. Daqui a pouco vamos perder o poder da fala, começaremos a ficar peludos e caminhar curvados.

Está faltando humanidade em nós.

Nem vou entrar no mérito de guerras e atentados, pois seria diálogos infinitos, só o exemplo de "homens-bombas" explodindo por aí já explicita o tamanho da "desumanidade". Parece definitivamente impossível viver em paz total, há sempre uma nação desumana querendo desumanizar outra. É o incrível processo de conquista a qualquer preço.

Está faltando compaixão. Já não se sabe mais o que nos torna humanos, a essência da palavra já se perdeu por completo e o que podemos fazer é seguirmos o caminho com a sorte de não cruzarmos por aí com uma dessas cabeças insanas que desfazem com a ordem cronológica da vida.

Se Deus nos criou, esqueceu-se de nos domesticar.

Só está faltando novamente conquistarmos as mulheres com um tacape na cabeça, dinossauros ainda não têm, mas corações de pedra já há.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O MUNDO NO CHÃO


          Nos últimos dias caminhando para o trabalho (a rua é uma sala de aula para reflexões) tenho percebido e cruzado por muitos moradores de rua. São, especificamente, os mesmos todos os dias nos mesmos locais. Na manhã quando estou indo para o trabalho, eles encontram-se dormindo, deitados no chão frio e úmido da calçada, quando volto à tarde, já estão de pé mendigando qualquer coisa, desde 10 centavos a uma migalha de pão. Essa é a rotina, todos os dias a mesma coisa, pelo menos nesses dias que cruzei por tal rua e que me chamou a atenção.


Dessa vez não me passou em vão...

Aquelas cenas me bateram de tal maneira que tive que escrever, alguém talvez pense a mesma coisa, não sei, mas não deixei passar dessa vez. O que eu pensei, é algo até clichê, não é o caso do “ser humano piedoso tendo pena dos coitados”, não foi isso, mas sim o fato de pensar que a rotina daquelas pessoas é simplesmente deitar num chão frio, levantar, mendigar e voltar para o seu mundo, aquele mundo no chão.

O que me causou desconforto é pensar que uma das coisas boas da vida, é deitar numa boa cama, botar a cabeça num travesseiro macio e dormir tranqüilo, só com a preocupação de ter que acordar no outro dia. E fiquei pensando como somos insatisfeitos por natureza. Para muitos, nada está bom, tudo é uma competição, tudo é uma rotina de querer ter, e ser maior que o outro. Voltamos a ser pré-históricos quando deixamos o lado competitivo de querer tudo a qualquer preço sobrepor o simples desejo de querer viver feliz.

Temos tudo, e não temos nada...

O que eles têm??? Talvez o latifúndio das calçadas e o trabalho no ramo econômico ao contar moedinhas, talvez à apreciação gentílica de nos chamarem de Doutor ou a aptidão gastronômica de comer comida do lixo.

Não é discurso hipócrita nem sentimentalismo Franciscano, é simplesmente a realidade nua e crua. O que eu quero dizer é que eles só têm aquilo, o mundo deles é aquilo e mais nada. E o que nós temos??? A gente reclama de barriga cheia essa é a verdade. Não que tenhamos uma vida maravilhosa e que de nada mais precisamos, não é isso, a gente sempre quer crescer e viver melhor, viver confortavelmente... Mas a diferença é que o nosso mundo não é no chão, não sonhamos e planejamos a continuidade das nossas vidas deitado num papelão com um teto de estrelas. Será que eles ainda sonham com alguma coisa???

Às vezes achamos que temos de menos, mas nós temos tudo. Nós temos tudo, só não temos o que queremos. Mas mesmo assim nós ainda temos escolhas.

O ir ao trabalho, o ir a Universidade, um dinheiro esbanjado, uma compra na loja, um carinho dos Pais, um afago do nosso amor. Nossa vida muitas vezes não é fácil, muitas coisas acontecem durante ela que nos deixam sem um Norte, às vezes arrasados. Mas nossa vida é um mar de rosas perto das vidas que seguem no cimento da rua.
Por isso nós temos que ser gratos por estarmos onde estamos, e não desperdiçar a vida com coisas pequenas, com coisas que simplesmente podem ser superadas facilmente e não transformadas num acaso sem lógica. Faltam sorrisos na cara das pessoas, há muitas pessoas amargas, que parecem que engolem a vida com um gosto mais amargo ainda. A vida é bela, e ela não pode ser desperdiçada.  Nós ainda temos escolhas...

Para aquelas pessoas, a vida é mais dura, eu não sei o que aconteceu para eles estarem ali, para chegarem naquele ponto, nem sei se elas são vitimas ou fizeram por merecer, não sei. Mas quando passarem por elas lembrem-se que a sua vida vale a pena ser vivida de um jeito melhor, e que se importar com os outros é só um dos pequenos jeitos de engrandecer o seu fim.

Há uma frase no final do filme “O auto da Compadecida” que diz: “... Deus às vezes se veste de mendigo para testar a bondade dos homens...”. Eu não sei se Deus existe, mas se existe realmente, eu não sei o que eles fizeram para ter o seu mundo no chão.

                Nós temos tudo.



domingo, 26 de agosto de 2012

A nossa estrada


 
     Por que nos perdemos no meio do caminho?
     A estrada, ora sinalizada, quando as luzes se apagam, é aí que os nossos olhos deveriam brilhar. Mas não, ao invés disso fechamos os olhos por medo da escuridão, e nos perdemos. E se cada um for para o lado contrário da estrada, cada vez mais nos distanciamos.
     Nos perdemos pois não seguimos de mãos dadas. E quando nos soltamos já é tarde para novamente entrelaçarmos os dedos. Entrelaçados somente os nossos pensamentos, que se enroscam sem saber desatar os nós. E puxamos cada um de um lado, apertando cada vez mais, estrangulando o coração.
     A nossa estrada nos impõem encruzilhadas, e quem escolhe o caminho certo a seguir somos nós mesmos, ora guiados pelo coração, ora desviado pela intuição. E o caminho escolhido, se for de coração, sempre será o certo se por descuido não nos perdermos no meio dele.
     Pedras haverão, buracos também, e o que devemos fazer?
     Desistir?
     Não...
     Seguir, apenas seguir.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Sobre o ensino, sobre a educação

MORDAÇA INVISÍVEL

Eu lembro bem de uma professora nos tempos da escola, a mais radical de todas, no qual não podíamos abrir a boca para nada, passávamos a aula toda como estátuas, um olhar desconfiado para o lado era sinônimo de advertência, um pensar mais alto era motivo de exclusão da sala de aula, ir ao banheiro? Nunca! Não podíamos pedir, nossas bexigas quase explodiam, quando não urinávamos nas próprias calças. Lembro que ao apontar o lápis, não podíamos ir jogar a sujeira no cesto de lixo no canto da sala, tínhamos que envolver tudo numa folha de papel e somente após a aula, em uma fila indiana, jogar no lixo o que tinha que ser jogado.

Nunca demos um piu por medo. Repito, medo! Medo de sermos duramente castigados pela "bruxa", que naquele momento, não mais era a "tia".
Lembro de várias professoras boas, no sentido literal da palavra. Bons professores que sabiam lidar com os alunos. Não pensem que eram professores desleixados, não, eles realmente eram bons professores. Reprimiam, mas sem serem repressores. Professores que mantinham nosso interior inquieto, mesmo sendo crianças para entender certas coisas, mantinham a nossa chama acesa em busca de respostas.

Mas infelizmente, a grande maioria eram ditadores transvestidos de educadores, nos ditavam as regras sem poderem ser questionados, da pré-escola ao término do ensino fundamental, nos conduziam de maneira a nos "podar", de cortar pela raiz a nossa transbordante rebeldia. Rebeldia essa justificada, graças à proliferação natural de hormônios saltando da pele devido ao crescimento, ao natural descobrimento, ao "querer saber de tudo" que é invocado de cada cabeça pensante ao passo que vamos crescendo.

Fomos moldados. Todos na mesma fábrica do saber, ou melhor, na mesma fábrica de aceitar as coisas.

E o que tínhamos que fazer? Aceitar.
Aceitar o que nos era imposto, e assim "aprender" sem espaço para dúvidas, sem espaço para questionamentos. Deus me livre descrer que os Portugueses chegaram ao Brasil aos beijos com os índios, ou questionar a importância nas nossas vidas da fórmula de Bhaskara.
"_Fique quieto menino! Deixa de bobagens..."
Sim, sempre bobagens, é claro.

E como cobrar tanto dos professores, se eles foram moldados numa escola mais autoritária ainda?

Lembro que nos faziam rezar Ave Maria e Pai Nosso antes das aulas. Como isso? Agora vejo, olhando para trás, que até a religião nos impuseram. E aí de nós se não quiséssemos rezar, ou deixar escapar um sorriso ao inverter uma frase, como fazíamos ao cantar, obrigados, o Hino Nacional.
Fomos moldados assim. É fato histórico que as escolas sempre impuseram o seu método de ensinar, reprimindo ao máximo qualquer coisa que fugisse aos ultrapassados livros didáticos.

Saímos da escola com uma mordaça invisível.

Hoje dentro da Universidade, que eu realmente vejo os reflexos do passado escolar, tanto nos professores, como nos alunos. Muitos deles conservaram e conservam o modelo da fábrica de onde fomos moldados.
Muitos dos Mestres e Doutores professores, ainda mantém o estereótipo da época escolar, vamos dizer assim, um perfil antiquado aos dias atuais, não evoluíram com o Mundo. Abdicam ao debater com os alunos, a ouvir as suas opiniões, contra ou a favor, nas discussões de dentro da sala de aula. Mantém ainda o pulso de ferro sem abrir espaço para grandes diálogos com os estudantes, agora não mais crianças, com os hormônios no pico máximo e o sangue fervilhando nas veias por respostas, por questionamentos, e acima de tudo, por uma mudança no cenário atual.

E por que, os inteligentes professores, e não duvido mesmo das suas qualidades e capacidade, ainda mantém esse perfil tão fechado?
Pelo mesmo motivo dos professores escolares. Eles eram alunos, também foram moldados assim. E mais uma vez o medo...
O medo de perder o controle da sala de aula. Enquanto os professores mantém os alunos nas mãos, eles são o poder divino, os ditadores das salas, sem espaço para protestos do povo. O medo então trocou de lugar. Do aluno, para o professor. O medo de perder o controle, o poder. O mesmo medo dos professores escolares.
Esse é um dos problemas em questão. Os professores, não todos, não conseguem se sentir seguros se não possuem o controle total dos seus alunos. E por isso, não conseguem "ter autoridade, sem serem autoritários". Eles precisam que todos os alunos os temem.

Um dos maiores problemas entre aluno e professor - professor e aluno, é o falta de diálogo. Sempre foi, principalmente na escola quando há, como dito antes, uma "poda" nos galhos que querem crescer demais. E o problema é transportado para as Universidades. Quando um aluno bate de frente com um professor (idéias e opiniões diferentes), há quase um colapso. Pois muitos não estão preparados para tais enfrentamentos. Resquícios estes vindos do seu próprio ensinamento, afinal, tempos atrás, era ele o amordaçado. Mas o pior ainda, é a mordaça que vem herdada do aluno...

A mordaça invisível que ainda se encontra em muitos alunos universitários, é um problema herdado ainda na escola. Moldados ao silêncio, quando o aluno se depara frente aos colegas e professores na Universidade, muitos não conseguem se comunicar, não conseguem expor suas opiniões, ou às vezes, nem apresentar um simples trabalho perante a sala de aula. Tremem de nervosos, gaguejam e não encontram palavras ao tentar expor suas idéias para os próprios colegas. Dirão: "_Isso depende da personalidade de cada um..." Também, é claro, mas muito devido à formação primitiva nos confins da infância e adolescência escolar.

A mordaça invisível ainda existe. O que vejo, são muitos alunos com idéias e opiniões definidas, debatidas em rodas de amigos, mas não expostas nas salas de aula, por medo de errarem, de falarem "bobagem", ou de discordar da opinião dos professores. E quando digo medo, não é o medo marginal, de apanhar, mas o medo intelectual, de bater de frente com o intelecto e vaidade dos professores. Medo de chocar a sua opinião com as do professor, e depois do calor da "discussão" (discussão essa necessária para o aprendizado), sentir-se prejudicado e pensar: "_Ah, agora esse professor vai querer me "ralar", me "rodar". Ou pior, quando deixam de lado as suas próprias convicções, para apenas concordar e aceitar o que o professor expõe, por pura acomodação.

Existe! É fato, eu vejo e sinto no cotidiano das salas de aula. Por isso, muitos preferem se abster, e guardar consigo suas opiniões e dúvidas, por não querer enfrentar, no melhor sentido da palavra, os professores com seus questionamentos.
É a mordaça invisível ainda presente.
Aos desamordaçados, que conseguiram se desenvencilhar do silêncio, e naturalmente, como tem que ser, expõem suas idéias perante todos, e questionam os professores sobre os assuntos que lhe cabem desconfianças e dúvidas, e que não se calam no obscuro do seu ser, são muitas vezes estereotipados de radicais, polêmicos, e o pior de tudo, denominados importunos. Por serem assim, por serem bem resolvidos, por terem suas convicções, muitas vezes erradas, com certeza, mas acima de tudo, por pensarem por si só e extravasarem de dentro de si, as interrogações, as incompletas lacunas que formam o seu interior.

Não duvido das boas intenções dos professores, essa classe tão desvalorizada pelos governantes, que nos formam e que simplesmente fazem parte das nossas vidas. Não duvido, sei da sua plenitude. Classe essa, que quero fazer parte um dia, na mais pura das sinceridades, quero ser um dia, um educador. Por isso todo esse incomodo e inquietação.

Agora, enfim, todos perguntarão: "_Quero ver então quando for você o professor, e encontrar todos a sua frente com olhos tão famintos do que a própria fome..."

Não questiono e não duvido de todos os problemas que existem na educação. Mas é através da educação que podemos mudar alguma coisa. História é passado, e não podemos mudá-la. O futuro sim, mudamos a partir do presente, para que mais em frente, o passado esteja mudado para melhor. É no agora que podemos começar a mudar, no ensinar e no aprender, ouvindo os professores, mas contestando-os sempre quando julgarmos necessário, por mais absurdo que seja o questionamento. Às vezes a absurda pergunta, é a absurda dúvida de alguém que está ao lado, que amordaçado, ficou impossibilitado de falar.

Eu quero fazer parte dessa mudança.
Arranque as suas mordaças, e use o dom da palavra.
É através do diálogo e a luz das idéias, que se quebra o pecado silêncio e se ilumina os confins da escuridão.

Cássio Almeida